TERESINA (PI) – Muito além da distribuição de alimentos e ações emergenciais, a Central Única das Favelas (CUFA) vem consolidando um trabalho que promove desenvolvimento humano, empreendedorismo e inclusão social em todo o Brasil. No Piauí, a organização atua há mais de duas décadas e ganhou ainda mais visibilidade durante a pandemia da Covid-19, quando se tornou um elo fundamental entre doadores e famílias em situação de vulnerabilidade.
Durante entrevista ao programa Mais Cidadania no Ar, o representante da instituição Nei Pereira, apresentou projetos que hoje transformam histórias de vida e fortalecem o protagonismo das comunidades periféricas.
Segundo a CUFA, a missão da entidade sempre foi oferecer voz, visibilidade e oportunidades para quem, historicamente, permaneceu à margem das políticas públicas e das oportunidades econômicas.
A pandemia representou um divisor de águas para a atuação da organização no estado.
Enquanto milhares de famílias enfrentavam dificuldades para colocar comida na mesa, a CUFA mobilizou empresas, parceiros e voluntários para levar alimentos e itens essenciais diretamente às comunidades.
No entanto, a distribuição de cestas básicas nunca foi encarada como objetivo final.
"O alimento é importante porque atende uma necessidade imediata. Mas nosso verdadeiro propósito é criar oportunidades para que essas famílias conquem autonomia e não dependam mais da assistência", destacou um dos representantes da entidade.
Essa filosofia orienta todas as ações desenvolvidas pela organização.
Cursos de qualificação profissional, incentivo ao empreendedorismo, formação de jovens, cultura, esporte e geração de renda fazem parte da estratégia para romper o ciclo da pobreza.
Durante a entrevista, também foi ressaltado o papel das organizações sociais na construção de uma sociedade mais justa.
Enquanto o poder público possui limitações para alcançar todas as comunidades, as organizações do terceiro setor conseguem estar presentes diariamente nos territórios, ouvindo a população, identificando problemas e articulando soluções junto aos governos, empresas e sociedade civil.
Para os dirigentes da CUFA, existe um equívoco quando algumas pessoas enxergam as organizações sociais apenas como instituições assistencialistas.
"O nosso trabalho não é criar dependência. É formar cidadãos, desenvolver talentos e criar oportunidades para que cada pessoa possa escrever uma nova história."
Entre os projetos apresentados, um dos grandes destaques é a Expo Favela, considerada hoje um dos maiores eventos de empreendedorismo voltado às comunidades periféricas do país.
O evento reúne pequenos empresários, artesãos, influenciadores digitais, produtores culturais, startups e empreendedores de diversos segmentos, oferecendo gratuitamente espaço para exposição de produtos, networking, capacitação e aproximação com investidores.
A seleção dos participantes acontece por meio de uma curadoria formada por especialistas que analisam critérios como inovação, potencial de crescimento e impacto social.
Mesmo recebendo centenas de inscrições todos os anos, apenas os projetos com maior potencial seguem para a etapa estadual.
Os melhores empreendedores conquistam uma vaga para representar seus estados na etapa nacional, realizada em São Paulo, onde disputam oportunidades de investimento e visibilidade em nível nacional.
Entre os relatos mais marcantes apresentados durante a entrevista está o de um jovem empreendedor piauiense que transformou completamente sua trajetória de vida.
Após enfrentar problemas com a criminalidade e passar pelo sistema prisional, ele decidiu reconstruir sua história trabalhando com reciclagem de pneus.
A CUFA acreditou em seu potencial, ofereceu apoio e abriu as portas da Expo Favela.
O resultado surpreendeu.
O empreendedor foi selecionado entre os destaques do Piauí, participou da etapa nacional em São Paulo, vendeu seus produtos para clientes de diferentes estados brasileiros e tornou-se referência em empreendedorismo sustentável.
Hoje, além de garantir sua própria renda, inspira outros jovens a acreditarem que é possível recomeçar.
"Quando uma pessoa troca a violência pelo empreendedorismo, quem ganha é toda a sociedade", destacou a organização.
Outro grande projeto desenvolvido pela CUFA é a Taça das Favelas, considerada a maior competição de futebol entre comunidades do mundo.
No Piauí, o torneio já mobiliza dezenas de municípios e milhares de jovens atletas, promovendo inclusão social, disciplina, convivência comunitária e oportunidades para novos talentos.
Mais do que revelar jogadores, a competição fortalece valores como respeito, trabalho em equipe, autoestima e pertencimento.
Para muitos participantes, a Taça das Favelas representa a primeira grande oportunidade de mostrar seu talento e sonhar com novos horizontes.
Durante a entrevista, a CUFA também destacou estudos realizados pelo Data Favela, instituto criado pela própria organização para pesquisar a realidade das comunidades brasileiras.
As pesquisas demonstram que as periferias movimentam bilhões de reais todos os anos, evidenciando que esses territórios não representam apenas necessidades sociais, mas também um enorme potencial econômico.
Segundo a instituição, essa realidade reforça uma mudança importante de percepção.
"A favela não deve ser vista apenas como um espaço de carência. Ela é um território de criatividade, inovação, empreendedorismo e geração de riqueza."
A frase, que se tornou um dos principais lemas da CUFA, resume a essência do trabalho desenvolvido pela organização.
Ao revelar talentos, incentivar negócios, fortalecer lideranças comunitárias e criar oportunidades para milhares de jovens, a instituição busca romper preconceitos históricos e mostrar uma realidade muitas vezes invisível para grande parte da sociedade.
Nas comunidades, a imensa maioria das pessoas é formada por cidadãos honestos, trabalhadores e empreendedores.
O desafio é fazer com que essas histórias ganhem espaço e sejam conhecidas.
A expectativa da CUFA é ampliar ainda mais o alcance de seus projetos no Piauí, fortalecendo parcerias com empresas, instituições públicas e organizações da sociedade civil.
Com iniciativas como a Expo Favela e a Taça das Favelas, a entidade demonstra que investir nas periferias significa investir em desenvolvimento econômico, inclusão social e construção de um futuro mais justo para todos.
A principal mensagem deixada durante a entrevista é clara:
Quando oportunidades chegam às comunidades, vidas são transformadas. E quando vidas são transformadas, toda a sociedade cresce junto.