Por Mais Cidadania Piauí
A conversa começou como tantas outras entrevistas do Mais Cidadania no Ar: o professor João Correia pediu que a convidada se apresentasse. Mas, poucos minutos depois, o que estava diante dos microfones da Rádio Verona FM era muito mais do que uma entrevista sobre política habitacional.
Era a história de uma vida dedicada à luta por pessoas que, muitas vezes, não têm sequer a certeza de onde irão dormir no dia seguinte.
Anísia Teixeira, educadora social e liderança do movimento de luta pela moradia, contou que sua trajetória começou ainda aos 14 anos, quando se envolveu na defesa de famílias ameaçadas de despejo em sua comunidade. Desde então, são cerca de 35 anos de trabalho voluntário dedicados ao Piauí, a Teresina e à luta social.
E foi a partir dessa memória que a entrevista ganhou emoção.
Ao longo da conversa com João Correia, Anísia deixou claro que o movimento de moradia não luta simplesmente por casas.
Segundo ela, a luta envolve saneamento, meio ambiente, mudanças climáticas, saúde, educação, segurança, transporte, infraestrutura e planejamento urbano.
“É um movimento completo”, explicou, ao defender que a discussão precisa alcançar todo o território onde as pessoas vivem.
A fala revela uma das principais mensagens da entrevista: uma casa sem infraestrutura ao redor não resolve completamente o problema de uma família.
Por isso, para Anísia, discutir moradia é discutir também uma cidade que ofereça condições dignas para seus moradores.
Foi quando João Correia levou a conversa para o lado humano que um dos pontos mais fortes da entrevista apareceu.
O professor perguntou o que significa, para uma família, não ter segurança sobre onde estará morando amanhã.
Anísia respondeu falando em violação de direitos.
Ela explicou que a ameaça de despejo e a incerteza sobre a própria moradia atingem diretamente a estrutura familiar e podem provocar ansiedade e outros problemas emocionais. Segundo seu relato, os movimentos chegam a acompanhar famílias também com apoio psicológico.
A discussão revelou uma realidade que muitas vezes permanece escondida atrás dos números do déficit habitacional: antes de ser um problema estatístico, a falta de moradia é um problema humano.
São mães, pais, crianças e famílias inteiras vivendo sob a angústia de não saber se continuarão naquele lugar.
Anísia também falou de suas próprias raízes.
Ela relembrou a vida na periferia da Zona Norte de Teresina, as áreas de ocupação e a participação da própria família nas organizações comunitárias.
A memória familiar apareceu durante a entrevista como parte da explicação de sua própria trajetória. Ela lembrou da mãe, Margarida, ligada ao movimento comunitário, e falou também das experiências de seus avós, conectando sua história pessoal à formação social de Teresina.
Não era apenas uma pesquisadora falando sobre a periferia.
Era alguém que nasceu, cresceu e continua vivendo essa realidade.
E talvez seja justamente isso que tenha dado tanta força às suas palavras.
Durante a entrevista, Anísia chamou atenção para a realidade das comunidades periféricas e destacou a presença de mulheres, mães solo e famílias negras entre aqueles que enfrentam maiores dificuldades habitacionais.
Para ela, essa realidade possui raízes históricas e revela problemas que atravessam gerações.
É nesse ponto que a entrevista deixa de ser apenas uma discussão sobre habitação e passa a discutir também desigualdade social e formação das cidades brasileiras.
Uma das imagens mais fortes utilizadas por Anísia durante a entrevista foi justamente ao falar sobre a regularização fundiária.
Para explicar a importância de saber quem é dono da terra, quais áreas podem ser regularizadas e como a cidade deve ser organizada, ela comparou o registro do território ao registro de nascimento de uma pessoa.
“A cidade não tem registro de nascimento.”
A frase sintetiza uma preocupação central apresentada por ela: sem planejamento e regularização, famílias permanecem vulneráveis e o poder público encontra dificuldades para organizar políticas capazes de acompanhar o crescimento da cidade.
Outro momento importante da entrevista foi a discussão sobre o déficit habitacional de Teresina.
Anísia afirmou que o número poderia estar entre 120 mil e 130 mil pessoas, segundo sua avaliação apresentada durante a entrevista, e questionou a capacidade de planejamento das administrações públicas diante de uma demanda que cresce continuamente.
A cobrança foi direta: é necessário conhecer o território, levantar as áreas que precisam de regularização e construir políticas habitacionais capazes de acompanhar o crescimento das famílias.
Para a liderança, não basta existir um programa habitacional. É necessário que a gestão municipal tenha planejamento, informação, qualificação técnica e compromisso social.
Talvez um dos relatos mais impactantes da entrevista tenha sido o de uma ocupação realizada em um prédio público que estava abandonado.
Segundo Anísia, o espaço foi ocupado por 30 famílias, envolvendo aproximadamente 150 pessoas. O que antes estava sem utilização passou a abrigar atividades comunitárias e sociais.
E a ocupação ganhou uma dimensão ainda maior.
No local funciona a Cozinha Solidária Dona Lindu, que, segundo o relato apresentado no programa, distribui aproximadamente 600 marmitas para famílias de comunidades da região.
Também existem atividades como zumba, capoeira e ações comunitárias, além de um centro de formação popular.
O relato de famílias com crianças autistas, algumas enfrentando dificuldades financeiras e até insegurança alimentar, tornou o momento ainda mais sensível.
A pergunta que ficou implícita foi simples:
se um prédio público estava abandonado e agora atende pessoas, onde está o problema em dar função social a esse espaço?
Anísia também revelou que grande parte das ações realizadas pelo movimento é mantida por solidariedade.
Bingos, arrecadações, doações e trabalho voluntário ajudam a manter as atividades.
Não se trata apenas de reivindicar.
A entrevista mostrou um movimento que também organiza, cozinha, distribui alimentos, promove atividades, acolhe famílias e transforma espaços abandonados em locais de convivência e cidadania.
Outro tema defendido durante a conversa foi a necessidade de repensar o centro de Teresina.
Anísia apresentou a proposta “Morar no Centro é Legal”, defendendo que regiões centrais não podem permanecer esvaziadas enquanto trabalhadores e famílias de baixa renda enfrentam dificuldades para encontrar moradia.
A ideia é aproximar moradia e trabalho, aproveitando estruturas existentes e dando nova função a imóveis que hoje estão abandonados.
Ao longo da conversa, João Correia conduziu Anísia por diferentes momentos de sua trajetória: a infância na periferia, o início da militância, as famílias ameaçadas de despejo, a regularização fundiária, o planejamento urbano, as ocupações e as ações sociais.
E Anísia respondeu com a autoridade de quem não fala apenas por teoria.
Ela fala a partir de 35 anos de experiência, trabalho voluntário e convivência direta com comunidades.
A entrevista mostrou que, para quem está na luta pela moradia, uma casa representa muito mais do que paredes e um teto.
Representa segurança para os filhos, estabilidade para a família, acesso aos serviços públicos e a possibilidade de viver sem o medo permanente de ser despejado.
No estúdio do Mais Cidadania no Ar, a discussão sobre moradia ganhou rosto, memória e emoção.
E a mensagem que ficou foi clara:
quando uma família luta por uma casa, ela não está pedindo apenas um endereço. Está lutando pelo direito de existir com dignidade dentro da própria cidade.
A entrevista com Anísia Teixeira reafirma a proposta do Mais Cidadania no Ar, programa produzido pela Associação Mais Cidadania Piauí, de abrir espaço para pessoas e movimentos que trabalham diariamente pela transformação social.
Porque cidadania também significa ouvir quem está na periferia.
Dar voz a quem luta.
E transformar essa voz em debate público.
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